Mariana, espanhola, 22 anos, veio pra Beijing estudar chinês no início do ano e espera que o idioma possa lhe abrir muitas portas na área de comércio internacional. Vive com o dinheiro que os pais mandam todo mês, sem exageros. Divide um quarto no alojamento da universidade com Marie, 19 anos, francesa de origem muçulmana. No início nem conversavam muito, mas aos poucos foram se tornando amigas e hoje vivem sempre juntas.
O que mais as une não é o fato de viverem sob o mesmo teto, o gosto musical, ou as preferências de vestuário. É a precaução – sim, a precaução – que as torna ainda mais íntimas e cúmplices. Não a precaução das mulheres ocidentais, de evitar gravidez indesejada, mas a precaução de evitar a teia de espionagem lançada pelo governo chinês sobre os estrangeiros.
Os computadores pessoais estão sempre guardados em armários cadeados, não acessam websites que possam ter alguma palavra contra o Partidão e, se o fazem, utilizam computadores públicos, longe de casa. As palavras que escrevem em emails são sempre cuidadosamente escolhidas, em nenhum momento usam termos como China, comunismo, Pequim, massacre, Tiananmen, protesto, guerra, censura… palavrão, então, nem pensar.
Evitam qualquer contato com chineses nativos, principalmente estudantes, e não fazem questão de estabelecer vínculo afetivo ou de amizade com estrangeiros. Passam longe de qualquer lugar em que estudantes estejam reunidos, mesmo que seja para tomar uma inocente cerveja e falar sobre futebol. Nunca conversam ao telefone sobre assuntos de política ou economia, tendo o cuidado de falar sempre em inglês. Usam o celular apenas em emergências e, claro, só passam o número a pessoas de confiança.
E sabem porque toda essa precaução?
Porque existe um boato de que o governo tem espiões espalhados por todos os cantos, controlando tudo que as pessoas fazem, vasculhando nossos emails, ouvindo nossas conversas e ligações telefônicas. Jovens chineses estariam infiltrados em todas as universidades com a missão de saber tudo que se passa, se fazendo passar por estudantes ou instrutores de língua chinesa.
Por todos os lados ouvem-se histórias de jovens estrangeiros que sumiram sem deixar rastro depois de uma conversa de bar, ou por possuírem muitos livros em língua estrangeira, ou então porque discutiram no meio da rua. Telefone grampeado então, é moda, todo mundo tem. E é sempre o amigo do amigo que presenciou alguma coisa.
Até que ponto isso é verdade? Não sei. Ainda não percebi nenhuma atitude suspeita de pessoas à minha volta, nunca ouvi barulhos estranhos enquanto conversava no celular, e nunca tive o meu quarto vasculhado – pelo menos que eu saiba. Meu blog nunca foi grampeado e só preciso do passaporte pra ir ao banco trocar dinheiro.
Isso tudo porque foi dentro de uma universidade, incentivado por estudantes estrangeiros, que nasceu o movimento pró-liberdade que culminou naquele massacre na praça – lembra?!?!.
Lenda Urbana
A lenda urbana mais recente em Pequim diz respeito à uma jovem Suíça que foi assassinada por um africano no ano passado. Já ouvi três versões diferentes, em nenhuma delas o africano tinha nacionalidade e em todas ele conseguiu fugir.
Em uma das versões, os dois eram namorados e ela morreu estrangulada enquanto faziam sexo. Ele apertava a garganta da menina, achando que ela estava gostando… e deu no que deu…
Na outra versão, ele era traficante e foi até à casa dela levar um pacote de maconha. Ela, sozinha naquela noite e ingênua, abriu a porta e comentou que tinha muito dinheiro em casa… e deu no que deu…
A terceira versão eu nem comento…
Bom, se eu ficar sem postar por mais de 3 dias, já sabem… é porque estou em algum lugar bebendo cerveja, muita cerveja, ou porque descobri uma excelente casa de massagem.
Zàijiàn.