Prefácio do livro Amante na China

Quando conheci Richard Amante, éramos ambos estrangeiros – em Florianópolis. Foi em minha primeira visita à cidade, a serviço do SporTV. Eu era o gestor dos estagiários do canal e tinha a missão de selecionar um aluno da Universidade Federal de Santa Catarina para o programa. Gostei do nível dos candidatos, mas estava procurando mais do que talento, potencial, vontade, capacidade de trabalhar em equipe, essas coisas que os estudantes botam nos currículos. Com algum treino no olhar (saí de casa aos 19 anos, para estudar na PUC de Belo Horizonte, e nunca mais voltei), buscava na postura, mais do que nas respostas, alguém que tivesse lá dentro aquela vontade de conquistar o mundo.

Este seria um bom momento para dizer que eu sempre soube que Richard Amante iria longe. Mas longe como foi para escrever este livro – tanto no sentido literal quanto no figurado – acho que nem ele imaginava que iria. O que percebi ali foi que aquele rapaz de ar determinado e respostas ousadas estava pronto para dar o próximo passo de sua vida na direção em que fosse necessário. Gaúcho de nascimento, ele já sabia o que era sair de casa. Já tinha tomado o rumo do mundo.

Uma vez que o aprovei no processo de seleção, não demorei muito a perceber que Richard seria contratado ao fim do período de estágio. Agora que não exerço mais a função de gestor, posso dizer: ele era do meu tipo preferido de estagiário. Inquieto, questionador, às vezes abusado e até meio inconveniente. Ora, de que adianta ser jovem se não for para abalar as certezas dos mais velhos – ou, na pior das hipóteses, o humor deles? E, claro, o cara era bom no que fazia, aprendeu depressa o ofício de botar no ar um canal de esportes na TV fechada.

O terceiro passo do processo de gestão de novos talentos – pelo menos na minha experiência – é o mais difícil. O sujeito passa por uma extenuante seleção para ser aprovado como estagiário, dá duro para ser contratado… E aí tem de aprender a lidar com a velocidade da vida profissional, que quase nunca atende às expectativas da juventude, de quem ainda vive dez anos a mil sem ter a menor ideia do que é viver cem anos a dez. Confrontados com esse novo ritmo, a maioria (para minha imensa decepção) se acomoda. Alguns desistem. Outros acham uma saída.

Depois de sete anos trabalhando (feliz) na editoria de esportes de O Globo, eu, ainda jovem, cismei que precisava estudar fora do país. Acabei mudando de emprego e me casando antes de passar um dos anos mais felizes de minha vida, acompanhado de minha mulher, cursando um fellowship na Universidade de Michigan. Devo ter contado isso a Richard Amante, mas nem de longe tenho a pretensão de ser quem o inspirou. O germe da mudança vive dentro da gente. E o do Richard era abusado – como ele.

Por isso, posso dizer sem medo de exagerar que não me assustei quando ele me disse que ia morar na China. E que concordei plenamente com a decisão. A China era o lugar certo para um repórter esportivo estar, às vésperas das Olimpíadas de 2008. Era o lugar certo para um jornalista estar, com seu papel revolucionário na geopolítica e na economia do mundo no século 21. E por que não seria o lugar para um garoto que saiu do Rio Grande do Sul para estudar em Santa Catarina e trabalhar no Rio de Janeiro continuar a se inquietar?

Quando voltei a encontrar Richard Amante, só eu era estrangeiro – em Pequim. Fui cobrir as Olimpíadas pelo SporTV. Ele acabou contratado novamente pelo canal, para trabalhar como produtor local. Mas, antes e depois disso, era o guia de nossa equipe pela cidade. Foi o paciente condutor de levas e mais levas de jornalistas brasileiros a pontos turísticos, shoppings de informática, restaurantes e, principalmente, o mercado da seda. Uma de nossas maiores diversões era vê-lo brigando em nosso nome com as vendedoras, sem se importar com aquela cara de choro que elas faziam depois de digitar o primeiro preço de uma longa negociação numa calculadora de mão. Quando lhe faltava o chinês, que já falava com alguma desenvoltura, ia em inglês mesmo.

Mas aí eu já começo a roubar material do livro. As aventuras do Amante na China, que eu acompanhei no blog antes de encontrar o autor em Pequim, me ajudaram muito na preparação para a viagem ao mais estrangeiro dos países que já visitei. Como no blog, Richard Amante traz neste livro o que o antropólogo Everardo Rocha, na introdução de “Magia e capitalismo”, chama de “ponto de vista da Antropofagia Social”: “Do lugar onde se está frente ao mundo pode-se ter acesso a uma visão deslocada desse mundo. Não no sentido de ‘fora’ dele, mas de dentro, estranhando”. Para um brasileiro, é fácil estranhar a China; difícil é traduzi-la. Há muito de uma coisa e de outra – e principalmente de diversão – nas próximas páginas.

Marcelo Barreto, jornalista esportivo e apresentador do Sportv.

Comentários (1)

 

  1. claudio olivo says:

    Lendo o prefãcio (que moral) fiquei curioso para ler o livro.
    Meus parab~ens !