Cuandixia, uma pequena vila perto de Beijing

“– Se a polícia parar o carro, nenhum de vocês sabe falar chinês. Eu sou um amigo e estou mostrando a cidade – disse o Jirou, nosso motorista ilegal, pouco depois de dar a partida.

O nome dele, na verdade, não é esse. Mas é assim, “carne de frango”, que ele é conhecido entre os entrangeiros. O irmão dele, que também tem uma van de dez lugares e trabalha ilegalmente, é conhecido como Niurou, ou “carne de vaca”. Os dois passam o dia levando estrangeiros pra todos os cantos de Beijing. O Jirou ainda tem um carro pequeno, que é pilotado pela mulher, e outra van mais nova, aos cuidados do filho. Todos transportam passageiros ilegalmente.

Saímos de Wudakou pouco depois das 9h da manhã de um sábado, no início da primavera de 2008. Comigo, estavam mais seis amigos: Fernanda Morena, minha prima; Stacy e Julie, um casal de canadenses; Shu e Carina, brasileiros descendentes de chineses; e Luba, uma russa meio louca que morava com a Carina. O motorista me garantiu que sabia o caminho. Mas, depois de uma hora de viagem, descobri que era mentira. Ele precisou fazer meia dúzia de ligações telefônicas antes de encontrar o rumo certo.

Às 10h30, avistamos a primeira placa, “Cuandixia 70 km”, e eu pude, finalmente, dar uma cochilada. Estávamos no caminho certo. A vila de Cuandixia, que tem mais de 400 anos e é uma das mais bem conservadas da China, fica a oeste de Beijing, aos pés de uma montanha, no vale do Rio Qingshui. A estrada, que é estreita e está em boas condições, contorna montanhas acinzentadas, cobertas de pedras e árvores secas. Para quem vem de um país tropical, é difícil acreditar, mas, na primavera, essa paisagem monocromática se enche do colorido das árvores e das flores e muda completamente a cara do lugar.

Abri a janela e senti o ar diferente, mais leve, fácil de respirar. Não era o mesmo ar de Beijing. “Só de respirar assim, já vale o passeio”, pensei em voz alta, em português. Olhei para trás, todos estavam dormindo. Logo em seguida, cruzamos com dois grupos de ciclistas e, mais adiante, com um rebanho de ovelhas.

– Vai logo, tira esses bichos do meio da rua – gritou o Jirou de dentro do carro, enquanto o pastor atravessava a estrada com seu rebanho de umas cem ovelhas.

A viagem, que antigamente era feita a cavalo em um dia, demorou pouco mais de três horas. Já passava do meio dia quando chegamos à entrada da vila, uma avenida de mão dupla, repleta de carros estacionados dos dois lados. O estacionamento é pequeno e já estava lotado. O Jirou teve que deixar o carro na rua, em uma vaga distante. Eu não lembrava que tinha sido feriado no dia anterior. Muita gente aproveitou os poucos dias de folga para visitar localidades turísticas nas cercanias de Beijing…”

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