Vivendo como ilegal

“A porta de correr, em vidro transparente, estava trancada, com a chave pendurada pelo lado de dentro. A sala era pequena, apenas com um balcão de atendimento ao fundo e quatro cadeiras escoradas nas paredes laterais. Samuel bateu no vidro duas vezes e um funcionário veio nos atender. O horário de almoço tinha acabado havia 15 minutos, mas ele mastigava alguma coisa quando saiu de uma porta atrás do balcão.

Ali funcionava a agência imobiliária que era responsável pela maioria dos apartamentos alugados para estrangeiros naquele condomínio. Cerca de 40% dos apartamentos do complexo de 12 prédios servia de moradia para estrangeiros. Para morar ali, como em quase todos lugares da China, só era preciso mostrar o passaporte e pagar três meses de aluguel adiantado. A agência se encarregava do contrato e de resolver os problemas que pudessem aparecer no imóvel.

– Queremos falar com o chefe – disse o Samuel, entrando na sala e escorando o cotovelo no balcão de atendimento. Eu estava logo atrás, com meu passaporte na mão.

Eu já morava na China há um ano e meio e tinha acabado de voltar do Brasil, onde fui passar as férias. Eu não tinha mais apartamento na China, minhas coisas estavam todas encaixotadas, espalhadas em casas de amigos. Já tinha começado a procurar uma casa nova, mas não tinha a mínima ideia de onde iria morar. Pela lei do país, depois de entrar na China, todo estrangeiro tem 24 horas para se registrar na polícia, ou é considerado um ilegal.

Eu pretendia passar uns dias na casa de amigos, ou da namorada, até encontrar um lugar para morar. Nesse caso, a polícia não aceitaria o meu registro e não me forneceria o comprovante de residência. E sem esse registro na polícia, eu também não poderia me matricular para o quarto semestre na universidade de línguas. Se eu não me matriculasse em dois dias, perderia o prazo de inscrição e, por consequência, o visto de estudante que ainda valia por mais quatro meses. Eu poderia até ser expulso do país. A minha situação era, digamos, delicada.”

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