Amante na Mongólia

Acabo de voltar da Mongólia, um típico “programa de índio” Chinês, repleto de areia, frio, banheiros exóticos, comida sem gosto, fotos censuradas, camelos fedorentos e muito, mas muito (muito mesmo!!!) Baijiu, aquela bebidinha dos 52%.

inner-mongolia2.gif

O trem partiu de Beijing pontualmente às nove horas da noite de segunda-feira rumo à Huhhot, capital da região autônoma da Inner Mongólia (parte da Mongólia que é controlada pela China, na divisa com a Rússia, eu acho!?).

Na chegada fomos recepcionados pelo frio e por uma guia que só falava duas línguas, Mongol e Chinês… aí já viu né… até agora não sei o nome dos lugares onde a gente foi. Tinha um japones no mesmo ônibus que entendia um pouco de chinês mas só falava japonês. Por sorte, um dos meus amigos fala japonês, aí a coisa funcionava mais ou menos assim: A guia falava em chinês, o japa traduzia pro japonês, o meu amigo traduzia para o inglês, e um de nós traduzia para o espanhol, porque uma amiga só fala espanhol e cantonês. Acha que alguma informação chegava completa depois desse telefone sem fio????

mong_011007_b05.jpg

Andamos duas horas de ônibus, numa auto-estrada que cortava umas montanhas, e chegamos no nosso primeiro destino: um lugar no meio do nada, desértico, onde só se via cabanas, cavalos e mais montanhas. Cada um que descia do ônibus era recepcionado por pessoas em trajes típicos, que cantavam músicas estranhas e nos ofereciam um copinho de Baijiu. Era o mesmo copo pra todos. Mas e daí?!, nenhum germe resiste a 56%.

A única coisa que tinha pra se fazer era andar a cavalo, um passeio de três horas. Pô, cavalo eu ando no Brasil. Dei apenas uma caminhada e me instalei numa dessas tendas. Por fora era meio esquisita, mas tinha até cama, TV e chuveiro. A cama era uma tábua com lençol, a TV só pegava canais em chinês ou mongol, e o chuveiro não tinha água quente.

mong_011007_b03.jpg

Depois do almoço dormimos um pouco, jogamos pôquer com pedrinhas e matamos tempo. Até aí, tudo tranquilo, um passeio pra lá de especial, próprio pra aliviar as tensões da cidade grande. Foi no jantar que começou minha ida ao inferno. Aquele pessoal que nos serviu Baijiu de manhã apareceu de novo, com mais bebidinhas… Depois do jantar tivemos alguns shows ao ar livre, com músicas e danças típicas.

mong_011007_b25.jpg
Maldito baijiu!!!

Aí sabe como é… música alta, tempo gelado, cerveja quente… uma garrafa de Baijiu aqui, outra garrafa ali… uma fogueira pra esquentar, uma Baijiu pra esquentar ainda mais…
Pessoas de um outro acampamento apareceram com mais Baijiu – dizem que até francês eu falei.

mong_011007_b07.jpg

Não podia acabar de outro jeito, fui parar no inferno… e sabe quem eu encontrei por lá? Metade do pessoal que tava bebendo comigo… Que coisa… Tem um que jura ter achado as botas que Judas perdeu por ali… Dói a cabeça só de lembrar… Não vou entrar em detalhes porque isso aqui é um blog de respeito… Só digo uma coisa: Jamais ande de camelo quando estiver de ressaca!!!

mong_011007_b04.jpg
Isso aqui é um túmulo que achei perto das nossas cabanas. Não me pergunte o que está escrito.

mong_011007_b02.jpg
Essa é uma ruazinha de comércio, pertinho do centro de Huhhot. Aliás, sabe como é que se fala o nome dessa cidade com sotaque Mongol? Pegue um pedaço de pão e dê uma mordida bem grande, a maior mordida que você puder… Dê duas mastigadinhas e fale bem rápido: Rú há hã tã, Rú há hã tã. Pronto, bem simples.

mong_011007_b10.jpg

Antes das dez horas da noite já tinham desligado o som e apagado as luzes. Fim de festa! Supostamente, a gente deveria dormir e acordar cedo, pra ver sol nascer no deserto… Que coisa!!! Até parece que alguém ali acordaria antes do sol nascer.

Levantei às sete, com a cabeça inchada, dolorida, ainda no inferno… estava um caco, mas tinha gente pior que eu, bem pior. Saí da barraca, abri os olhos devagarinho e olhei pro horizonte… nada.. olhei pro lado… nada… olhei pro outro lado… nada… só deserto e montanhas… Olhei pra baixo, estava pisando em bosta de cavalo… “O quê que eu tô fazendo aqui?”

mong_011007_b09.jpg

Entramos no ônibus e pegamos a estrada, sei lá que estrada e sei lá pra onde… só sei que sentei no fundo do ônibus e tentei dormir. Só tentei, porque o motorista era meio doido, como todo motorista chinês, e o ônibus sacudia muito. Três horas depois, ainda na estrada, comecei a sentir um monstro crescendo dentro de mim… uma cólica terrível, infernal, daquelas bem doloridas… e a estrada não acabava, era eterna, a gente não chegava nunca… pela janela eu só via deserto e montanhas.

Fechei os olhos, levantei a cabeça, apertei com força os braços da poltrona e pensei “ó meu buda querido, não me faz passar vergonha no meio dessa gente toda. Eu tenho me comportado tão direitinho”. Mas não teve jeito, o monstro só crescia! Não tinha banheiro no ônibus e eu, lá no fundo, sem poder me mexer, não sabia como pedir pro motorista parar. Nessas horas passa de tudo pela nossa cabeça. Olhei pra minha mão esquerda, “Daria o meu mindinho por um banheiro”…

mong_011007_b29.jpg
Recadinho aos motoristas imprudentes…

Peguei meu celular e mandei uma mensagem para os meus amigos que estavam na primeira fileira. “Preciso de um banheiro urgente. Por favor, avise a guia.”. Foi a minha salvação. Não sei em que língua conversaram, mas dez minutos depois o motorista encostou num posto de gasolina. Desci correndo e entrei no banheiro… e que banheiro!!!! Só dois buracos no chão, um ao lado do outro… onde eu iria me segurar??? Eu nunca tinha tentado fazer isso antes!!! Não sei como, mas eu consegui usar um típico banheiro chinês pela primeira vez, e sem grandes problemas.

Ah!!! Que alívio, depois disso achei que o meu dia só poderia melhorar… Pura ilusão!!!

Chegamos no tal deserto onde se anda de camelo, mas antes fomos almoçar, uma deliciosa refeição típica, vegetariana, sem gosto e com muita pimenta. Quase nem toquei na comida.

Depois do almoço tivemos que colocar uma proteção nos sapatos, pra não ficar com os pés cheios de areia. E, para chegar até o local onde ficam os camelos, usamos um pequeno caminhão que subia e descia as dunas com uma facilidade impressionante.

mong_011007_b08.jpg

Foi um passeio rápido, lá estavam os camelos, deitados no chão, em fila, amarrados pelo nariz. Olhei praqueles animais peludos, fedorentos e pensei: “Isso não vai dar certo!”

mong_011007_b061.jpg
Sabe o que é isso??? É uma cabeça da ovelha que tio tava preparando pro nosso almoço

Havia algumas nuvens no céu e isso deixava o clima um pouco estranho. Quando uma delas tapava o sol, esfriava muito, era preciso usar casaco. Quando o sol aparecia, ficava muito quente, tinha que tirar o casaco. Eu, que já estava numa ressaca f**, enchi o saco desse tira-e-põe e não tirei mais o casaco. Não sei se foi uma boa idéia.

mong_011007_b16.jpg

O deserto estava bem movimentado, cheio de turistas, chineses e estrangeiros, e todos queriam andar de camelo. Havia outras atividades, como sandboard, pilotar quadriciclos, deitar na areia, caminhar, correr… mas todos queriam andar de camelo. Chegou na minha vez e faltou camelo, pra variar, e tive que esperar meia hora.

Cheguei a ficar com pena dos animais, amarrados em fila pelo nariz. Uma ponta da corda fica presa num pedaço de pau que está enfiado no nariz e a outra ponta é amarrada na corcunda do camelo da frente. Só que a corda é bem curtinha, eles passam o dia inteiro andando de um lado pro outro, cheirando a bunda do camelo da frente. Mas de vez em quando o meio de campo embola e o bicho acaba fungando no cangote do sujeito que está no animal da frente.

Os camelos chegaram e levaram uns pontapés, que é a ordem para deitar. O último da fila monta no camelo, o camelo se ergue… o da frente monta e o camelo se ergue, e assim por diante… Mas esse movimento de não é muito suave. Primeiro ele ergue a bunda e depois a parte da frente, é preciso segurar firme pra não cair de uma altura de quase dois metros.

mong_011007_b15.jpg

Começamos a andar, bem devagar, seguindo o guia (sim, vai um cara caminhando, puxando a fila). Aqueles bichos balançando de um lado pro outro, pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, rebolando um cara do outro, e eu ali, me concentrando, tentando fazer contra-peso pra evitar o balanço. Mas não adiantou muito, depois de quinze minutos balançando, pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, eu já queria descer, deitar no chão, ganhar um cafuné e dormir. “Que inferno!!! Quem é que teve essa idéia de andar de camelo, no meio do deserto, logo depois do almoço?????”

mong_011007_b17.jpg

Ninguém tinha me falado que não se deve andar de camelo quando se está de ressaca!!! E eu, bem corajoso, tentei enfrentar numa boa. Andamos vinte minutos e chegarmos numa pequena construção no meio das dunas, um mini-zoológico com pombos, corujas, cabras e outras penosas engaioladas. No mesmo lugar, há uma sala com alguns esqueletos montados, pendurados no teto, cavalo, camelo, cachorro, cabra… Tirei umas fotos e saí. Sentei na areia e fiquei alguns minutos observando a paisagem, pensando se o enjôo continuaria por muito tempo.

mong_011007_b13.jpg
Esse esqueleto não tinha cabeça. Logo… deve ser a mula-sem-cabeça. Ou alguém aí sabe ler a placa?

Meia hora depois fizemos o caminho de volta e eu pude, finalmente, admirar o camelo da frente fazendo cocô, uma cena bem instrutiva e cheirosa, que durou longos cinco minutos. Eu só queria descer do camelo e sentar numa sombra. Chegamos, achei a sombra mas não fiquei sentado por muito tempo. Tive correr pra trás de uma duna (pra não fazer feio) e dar uma vomitadinha básica, só pra descontrair.

O passeio daquele segundo dia na Mongólia estava chegando ao fim, embarcamos num jipe e voltamos ao ponto de partida. Antes de subir no ônibus fui usar o banheiro. E sabe o que tinha naquele banheiro??? Baldes! É… baldes, daqueles de metal, usados em construções… Baldes usados agora para fazer xixi… e estavam todos quase cheios. Escolhi o menos cheio e mijei com cuidado, tapando o nariz por causa do mau cheiro.

mong_011007_b11.jpg

Sentei no fundo do ônibus, na mesma poltrona, escorei a cabeça na janela e apaguei, rezando pra não ter outro problema estomacal. Partimos em direção a Huhhot, onde um hotel com água quente nos aguardava.

Chegamos a Huhhot no final da tarde e fomos direto para o restaurante, provar mais um pouco da deliciosa comida sem gosto da Mongólia. Meu estômago parecia estar melhorando, já conseguiria comer meia ovelha sozinho, mas não tive coragem. Estava anoitecendo, o cansaço começou a bater, eu só queria um chuveiro quente, descansar um pouco e jantar (de verdade).

Fomos para um hotel que fica ao lado do terminal de trem, não muito confortável, mas limpinho e com uma cama macia. Larguei minhas coisas no chão e fui direto pro banheiro, louco pra ver aquela água quentinha saindo da chuveiro, recarregando minhas energias. Era um banheiro pequeno, a mesma torneira servia tanto para a ducha, quanto para a banheira.

A água até que saiu quente, mas apenas pela torneira da banheira. O chuveiro não estava funcionando. Foi complicado explicar o que estava acontecendo, demorou vinte minutos até que alguém da manutenção viesse e consertasse.

mong_011007_b23.jpg
É, aqui se joga sinuca no meio da rua em mesas portáteis

Depois do banho, um pouco mais limpo e alegre, encontrei meus amigos na porta do hotel e saímos em busca de comida ocidental. A cidade é grande, cheia de prédios, quase todos ostentando enormes placas luminosas bilíngues, em chinês e mongol, devia ter algo diferente. Saímos pela avenida principal e, após quinze minutos de ônibus e mais quinze de caminhada, encontramos um lugar com comida decente. Me ajoelhei na frente do restaurante e agradeci por estar ali, depois de dois dias no deserto.

Entrei, tirei o casaco, me escorei no balcão, inflei o peito, abri um sorriso ao olhar o menu e pedi: “Um Big Mac!!!”. É… é isso mesmo, o melhor lugar que a gente arranjou para comer, no interior da China, foi um Mc Donald’s. E aquele Big Mac nunca foi tão saboroso, com batata frita e coca-cola.

mong_011007_b24.jpg
Nunca imaginei que ficaria feliz por comer isso aí…

Satisfeitos, saímos a procura de um bar para tomar mais uma coca-cola, mas não achamos nenhum que nos agradasse. Todos vazios, com música muito alta e bebidas quentes e caras. Voltamos para o hotel e eu dormi até às onze horas da manhã. Só não fiquei mais tempo na cama porque tínhamos que fazer o check-out até onze e meia.

mong_011007_b21.jpg

Almoçamos (sem comentários) e fomos visitar dois templos budistas perto dali. A beleza das construções é algo indescritível, só mesmo vendo. Nem a chuva conseguia tirar o charme desses lugares, tiramos várias fotos e fiz alguns vídeos, mas era proibido fazer imagens nos locais mais bonitos. Uma pena! Nem os monges se deixavam fotografar.

mong_011007_b26.jpg

mong_011007_b19.jpg

À noite, embarcamos de volta pra Beijing, mais onze horas de trem.
Ah, a civilização!!!! Fui direto para o meu quarto, tomei um demorado banho quente (o que contraria as normas do Ministério de Economia da Água) e dormi… na minha cama…

mong_011007_b18.jpg

mong_011007_b22.jpg

Comentários (1)

 

  1. Milton Daga says:

    Que coisa hein Richard????

    Muito bacana ler as Histórias e estórias…rsrsrsrs

    Valeu…vamos ler o teu livro em breve!!!

Comente