Ah, o táxi na China…

Guomao, região central de Beijing, oito horas da noite de um dia qualquer, há três semanas. Estávamos, eu e uma amiga, esperando um taxi na frente de um prédio. Não havia mais ninguém por perto, o próximo carro seria nosso.

Lá longe eu avistei um taxi se aproximando, desci da calçada e fiz sinal. Ele parou uns cinco metros mais à frente, esfreguei as mãos, sorri e fui na direção dele. Não é nada agradável ficar na rua numa temperatura dessas, principalmente quando está ventando. De repente… rápida como um raio, repentina como um trovão… aparece uma chinesinha do nada, correndo… ela abre a porta e senta no banco de trás.

Humm… eu tava tranquilo, não queria confusão, dei umas risadas e me virei pra procurar outro carro livre. A minha amiga, uma italiana esquentadinha, partiu pra cima da chinesinha, em inglês: “esse taxi é nosso, a gente chegou primeiro!!!”. Eu, de longe, só dizia (em português) “deixa pra lá, não vamos brigar por causa de taxi!”.

Mas ela continuou, arrisacando um chinês com sotaque latino, e a chinesa, meio constrangida, saiu do carro, “ok, ok”. A italiana entrou e eu, ainda rindo, já estava pronto pra entrar. O taxista, que tinha cara de poucos amigos, disse, num chinês não muito claro, acompanhado de mímica, “Desce! Desce! Não levo estrengeiros! Desce!”. Aí sim, não contive as gargalhadas. Recuei, dei espaço pra moça entrar, mas a vontade era de meter o pé na porta do carro. A italiana ainda tentou argumentar, mas não teve jeito.

Na mesma hora encostaram outros dois táxis, fui para o próximo, fiz sinal com a mão e perguntei, num chinês claro e inconfundível, “ke yi, ma?” – que é o mesmo que dizer “pode ser ou tá difícil?”. O cara, todo apavorado, trancou as portas e fez sinal de negativo com as mãos. Foi nesse momento que eu descobri o prazer de falar palavrões em português… ah, que alívio… me senti muito mais leve depois de mandar o cara pra vários lugares…

Fomos até o outro táxi. Sem perguntar nada, abri a porta e entramos rapidinho. Depois de deixar a esquentadinha em casa (ela morava ali perto), pedi que o sujeito me levasse pra outro lugar: “Wudaokou, Chengfulu, Yuyan Daxue”. O trânsito nessa hora é infernal, parece São Paulo. Escorei a cabeça na janela e dormi.

Acordei uma hora e meia depois, ainda no carro, olhei para os lados e percebi que eu estava num lugar da cidade onde nunca havia estado antes. Tentei ler as placas, mas não encontrava nenhum nome de rua conhecido. “Mas bah, tchê! Não sei onde a gente está, não conheço esse lugar!”, disse, no meu chinês quase sem sotaque. “Tá tranquilo, chefia, logo ali já é a YuDian Daxue!”…

“Tchê! Eu disse YuYan Daxue, e não YuDian Daxue”. Ele olhou pra mim, como se não estivesse entendendo a situação, aí eu repeti o endereço, bem calminho: “Wudaokou (que é o nome do bairro), Chengfulu (que é o nome da avenida que corta o bairro), Yuyan Daxue (que é o nome da minha universidade)!” Eu digo isso pra todo táxi que eu pego em Beijing e nunca tive problemas. Mas aquele não era o meu dia! “Ah! Chengfulu!!!! Ok, Ok!!!!”…

Entrando em casa, vinte minutos depois, tive uma revelação divina, “Vou ter que começar a fazer Yoga ou Taijiquan!”.

Comentários (8)

 

  1. beto says:

    rapaz lamento pelo ocorrido,tambem sou taxisista aqui em boston,mas vc tambem vacilou ,foi dormir,nao culpo o rapaz porque na pronuncia e muito parecida,mas te dou uma dica arruma um gps eu acho q ira te ajudar bastante.e v se nao dorme na proxima se podera acabar no brasil rsss.

  2. Anderson says:

    poutz… cara, taxi é uma merda, tu ainda dorme . TA LOCO!
    esses caras tao sempre esperando a chance de nos passar a perna.
    No ap que eu moro, depois de pagar 2 meses de aluguel mais calção, a doan disse que nao alugava pra estrangeiros e nao ia me dar o papel da residencia…
    pior, depois disse q se eu fosse negro tinha q mudar na mesma hora… TUDO LOCO!
    quando vamos tomar um mate?

  3. NegANDO says:

    Ah, com é a tal “amiga” italiana … sei, sei …
    Beijunda!

  4. jugger says:

    dormir num carro de um chines completamente desconhecido? Tava querendo morrer, ô gaucho? Por pouco não acabou como ‘voluntário’ daquela mostra de corpos humanos ‘plastificados’ que um alemão doido fez com corpos de ‘voluntários’ chineses…

  5. Lena says:

    Depois desta acho que não irás mais dormir em táxi, não é? Parece até aquele japonês que queria descer em Floripa nem que estivesse dormindo….lembra? Ah, ah,ah…

  6. Thiagot says:

    ‘Bah tchê’ deve ser algum palavrão em chinês. Pára de falar essa porra…

  7. Dorothy says:

    Voce deixou italianinha escapar ?

  8. Giovani Savagnago says:

    bah velho, leio o teu blog – ótimo, por sinal – desde o primeiro post e nunca havia comentado antes, mas fiquei com uma dúvida depois deste post e tenho q te perguntar. Como vocês pronunciam o nome do bairro “Wudaokou” ????
    rsrrs, porque num português grosseiro fica um negócio meio estranho… hauhuah

    abraços, bom trabalho aí na China, e continue postando que é um dos melhores blogs q eu já li.